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O Projeto

Projeto Acalanto

As canções das mulheres indígenas do rio Negro

Acalanto são como são conhecidas as canções para fazer pequenas crianças adormecerem, são cantigas de ninar, de embalar criança. Mas são também sinônimo de aconchego.

Foi inspirado em conhecer como as mulheres indígenas cantam para fazer seus pequenos filhos dormirem que nasceu o Projeto Acalanto. Mas apenas nasceu assim, como um rio que ao nascer corre para o mar, mas não conhece todo o seu caminho, as surpresas que lhe são reservadas, seus rebojos e afluentes. Quais contornos formará? Quão profundas serão suas águas? Quantas manhãs conhecerá?

Como um rio e seus muitos cantos em seu percurso, o Projeto Acalanto procurou conhecer e trazer à luz as diversas canções das mulheres indígenas do rio Negro cantadas nos mais variados momentos de suas vidas. Existem cantos femininos para a caminhada até a roça e para o plantio de mandioca e outros bens, cantos com tom jocoso contando alguma pequena história que assusta, os Hãde que contam acontecimentos passados ou presentes com as letras criadas na hora de acordo com o que estiver acontecendo e para quem estiver presente e os acalantos que em grande parte falam de uma cotiazinha que faz dormir, do pai que foi pescar e da mãe que vai trabalhar.

Etnias & Comunidades

Comunidade Taracuá

Mulheres em frente à Maloca de Canto e DançaTaracuá fica na Terra Indígena Alto rio Negro. Saindo do rio Negro, segue-se pelo rio Uaupés até um pouco depois da confluência com o rio Tiquié, numa viagem de 8 horas de voadeira num motor 60 Hp.  
Região predominantemente indígena, onde o ‘outro’ são os não-índios. No entanto, nos momentos de descontração, quando ambos interagem, fica esquecido o angustiante abismo social entre “índios” e a “sociedade envolvente”.
A comunidade com nome de formiga tem aproximadamente 360 moradores. A região é habitada desde tempo imemoriais, sendo local de passagem da Canoa da Transformação, a qual trouxe a Gente da Transformação, com suas rezas, instrumentos e malocas para sobreviverem nessa terra. Em Taracuá moram majoritariamente indígenas Tukano, Desana, Pirá-tapuya, Arapaso, Tariana, e Tuyuka, que vivem de agricultura, pesca, extrativismo e artesanato.
Durante as gravações os trabalhos foram realizados em uma Maloca Tradicional, chamada Bahsriwii, na qual foi feita, assim como nas outras comunidades, reunião preliminar para esclarecimento do contrato de cessão de direitos autorais e de imagem, conforme a Portaria Nº. 177/Funai de 16/02/06, o qual conta com um projeto de repartição de benefícios para as comunidades indígenas de toda a região.
Os trabalhos em campo foram apoiados pela Amitrut - Associação das Mulheres Indígenas de Taracuá, rio Uaupés e Tiquié, em especial pela Rosilda, que foi nos deu grande apoio logístico e ainda como tradutora simultânea das canções. As canções de Taracuá falam sobre a força e o orgulho da mulher e da importância da vida em família.

 Comunidade São Pedro

Cotidiano de uma aldeiaA comunidade São Pedro está localizada no rio Tiquié, afluente do rio Uaupés, este por sua vez, afluente do rio Negro, na Terra Indígena Alto rio Negro. Sua população é formada principalmente por indígenas da etnia Tuyuka, autodenominados Utapinapinoma, o que pode ser traduzido como Filhos da Cobra de Pedra.
A comunidade liderada por Higino Tenório vem durante anos produzindo material educativo tendo como base os conhecimentos étnicos de seu povo. O árduo trabalho coletivo gerou um produto destinado ao plano político pedagógico, apoiado pelo ministério da educação, atualmente sendo avaliado pela secretaria estadual de educação do Amazonas. O objetivo principal da comunidade é que seus jovens possam continuam por lá durante o Ensino Médio, sendo qualificados, ao contrário do que acontecia, quando os alunos precisavam ir para as cidades grandes e a comunidade se enfraquecia, havendo então descontinuidade da força coletiva e dos conhecimentos tradicionais.
Hoje a força da comunidade é visível a todos os olhos. E as suas mulheres expressam isso em suas músicas. As canções de São Pedro falam do orgulho em serem Filhas da Cobra de Pedra e da esperança em uma Educação Escolar realmente diferenciada para os povos indígenas.

Comunidade Balaio

O caminho para a Comunidade

A comunidade Balaio fica na Terra Indígena de mesmo nome. Partindo de São Gabriel da Cachoeira são 100 quilômetros de estrada de terra pela BR-307, que faz ligação até Cucuí, fronteira com a Venezuela. Com chuva, a estrada fica lama pura e as aldeias ficam isoladas por vários dias (a equipe de trabalho ficou com o carro atolado por 5 horas, veja as fotos)! O asfaltamento dessa rodovia tem sido motivo de luta há muitos anos por parte dos indígenas e é inclusive tema de uma dos Hãde apresentados no CD Acalanto.
A Terra Indígena Balaio só recentemente foi homologada, em 21/12/2009, e tem em suas comunidades indígenas Baniwa, Baré, Desana Kubeo, Koripako, Pira-tapuya, Tariana, Tukano e Tuyuka.
Na comunidade Balaio as gravações foram realizadas em uma casa de farinha, ao ar livre. Antes do início dos trabalhos as crianças da escola vieram nos presentear com uma canção de boas-vindas e a partir de então até o fim da viagem estivemos imersos nas canções das mulheres indígenas do rio Negro. Em campo o trabalho foi realizado com o apoio da Associação das Mulheres Indígenas do Balaio/AMIBAl, especialmente da Rosa, que também nos apoiou com a tradução simultânea das canções.
Recebidos muito bem pela extremamente hospitaleira comunidade Balaio, a equipe toda espera um dia voltar para poder rever as amigas e amigos feitos, novamente provar o cozido, o ‘vinho’ de patauá, e banhar-se no inesquecível rio Balaio.

Etnia Tariano

Etnia pertencente ao tronco lingüístico Aruaque, os Tariano habitam atualmente os rios O urucum é beneficiado para que as pessoas possam se enfeitar
Médio Uauapés, Baixo Papuri e Alto lauiari povoando principalmente as cachoeiras de Iauareté e Piriquito. Um grupo Tariano se deslocou em período pré-colonial para esta região, ocupando-a, e passando a manter relações de troca e casamento com os grupos Tukano Oriental que também se encontravam na área. Adotaram também a lingua Tukano, apesar de que seus termos para elementos rituais, míticos e nomes próprios são também falados no idioma Aruaque original.
Contam os Tariano que seu povo surgiu em um buraco em Uapui Cachoeira, no rio Aiari, afluente do rio Içana, onde foram divididos os clãs Tariana. Este local é a “Casa do Trovão”, considerado o Centro do Mundo. Existe também uma versão que conta que durante a viagem da Cobra-canoa, a qual trouxe os ancestrais míticos dos diversos povos indígenas do Alto Rio Negro, iniciada no ‘Lago de Leite’, passando pelo rio Amazonas até chegar à Cachoeira de Ipanoré, sairam seus ancestrais pelos buracos das pedras desta última cachoeira.
Diroá é o Deus criador Tariano e também o criador dos instrumentos musicais, diferentemente de como é para os Desanas ou Tukano para os quais o criador dos instrumentos foi Juriparí. Existem cerca de vinte flautas sagradas entre os Tarianos tocadas durante o dabucuri – ritual de trocas de bens entre duas etnias. Cada música toca uma das flautas, imitando um ser sobrenatural da floresta. Além de excelentes músicos, os Tariano são especialistas em implementos para a pesca como matapi, cacuri e caiá.    
Em agosto de 2006 o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional promoveu a declaração da Cachoeira de Iauareté como Patrimônio Cultural do Brasil, em nome das diversas etnias que ocupam a região. Iauareté significa Cachoeira das Onças e essa cachoeira tem em suas pedras parte da história mítica dos Tariano. Para este povo o héroi Okomi fugiu da gente-onça para não ser devorado, transformando-se em plantas e animais. As coisas em que se transformou foram virando pedras, locais sagrados que marcam a passagem deste povo pela região.

Etnia Tukano

ft_tukanoO povo indígena Tukano pertence à família indígena Tukano Oriental, juntamente com outros 15 povos que falam outras linguas pertencentes a esta família. Existem aproximadamente 6.500 tukanos no Brasil, sendo o povo mais numeroso da família Tukano Oriental no Brasil. Encontram-se localizados ao longo de toda a região do rio Negro, ocupando tradicionalmente os rios Uaupés. Tiquié e Papuri e também outros rios na Colômbia.
O povo Tukano se autodenomina Dahsea. Em ocasiões sagradas, se autodenominam Ñamíri-Mahsã, o que significa ‘Gente da Noite’ (em função do momento mitológico da partilha entre o Dia e a Noite com outro povo Tukano Oriental, os Desana), ou em outras situações, Yepá-Mahsã, (Gente da Terra, em referência ao ancestral Tukano).
São conhecidos como confeccionadores do banco cerimonial denominado Kumarõ, literalmente ‘lugar do iniciado’, o qual é utilizado para diálogos entre o bayaroá, mestres de música, canto e cerimônia e o kumuã, que são os sábios, conhecedores de mitos, histórias, rezas, plantas medicinais e outros.
Os povos Tukano Oriental praticam a exogamia lingüística, ou seja, casam-se com uma pessoa de um outro povo, também Tukano Oriental, mas que fala outra língua. Assim, um rapaz Tukano casa-se com uma moça Desana, Tuyuka ou Arapaso, por exemplo. Após o casamento, as mulheres devem ir morar junto a seus maridos, fato expressado em várias das canções presentes no CD Acalanto, pois as mesmas passam a ser recebidas em outras famílias e precisam se adaptar a estes ambientes e serem recebidas em novos lares, daí o agradecimento a suas sogras e parentes.
Outra questão interessante sobre a mulher Tukano é que algumas são escolhidas e treinadas desde pequenas para serem uma tipo de cantora que receberá o nome de yihigo, a qual durante os cantos kahpíwayá, enquanto os homens dançam e cantam, será encarregada de entoar uma nota longa várias vezes, compondo o ritmo do ritual.

Etnia Tuyuka

O café da manhã é comunitárioO povo Tuyuka é um dos 16 grupos lingüísticos Tukano Oriental, localizado na região conhecida como Alto Rio Negro. Os Tuyuka vivem às margens do Alto Rio Tiquié, a uns 15 quilômetros com a Colômbia, também sendo encontrados em outras localidades, como no rio Uaupés, e ainda em outros rios menores como o Papuri, no extremo noroeste do Brasil.  Sua população é estimada em 700 indígenas.
A autodenominação do povo Tuyuka é Utãpinopona, a qual tem como significado Filhos da Cobra de Pedra. Os Tuyuka eram tradicionalmente conhecidos por serem especialistas na construção de canoas e na confecção de redes feitas de fibras de buriti.
Atualmente sua luta gira em torno da própria continuidade étnica, tendo como uma das linhas de pensamento a manutenção dos jovens Tuyuka nas aldeias por todo o ensino escolar, inclusive durante o Ensino Médio, revertendo assim o processo de êxodo rural. O cuidado com a educação fundamental e média fez com que a língua Tuyuka, antes à beira da extinção, esteja agora sendo falada por todos, dentro e fora das escolas.
Para isso as comunidades se mobilizaram e criaram o próprio Programa Político Pedagógico (PPP). No entanto, o PPP vem encontrando dificuldade para ser aceito pelas autoridades estaduais, apesar de apoiado pelo Ministério da Educação. O PPP da Escola Indígena Utãpinopona conta com cinco linhas de trabalho: Paisagens Florestais Tuyuka; Danças Cerimoniais, Benzimentos, Medicina e Ecologia Tuyuka; Estudo das Leis e Pensamento Crítico; Manejo Tradicional e Atividades Alternativas; e Conhecimento das Mulheres para a Produção de Alimentos e Promoção de Saúde.  Neste sentido, vale notar que uma importante tradição que se mantém entre os Tuyuka é o tipo de alimentação preparada pelas mulheres, que envolve a preparação do peixe e da carne de caça moqueada, acompanhada de bastante pimenta, formigas saúvas torradas, servida juntamente com beiju para serem comidas em conjunto pela comunidade.
À noite, em ocasiões especiais, as comunidades Tuyuka se reúnem para realizar cerimônias, ritos, danças, cantos, batizados e benzimentos nas Malocas Tradicionais, chamadas Bahsariwii, ou Casas Rituais, onde buscam se confraternizar com os espíritos dos Criadores da Humanidade e compreender os acontecimentos do presente, do passado e do futuro, através do kahpí, enteógeno utilizado pelos índios do Alto Rio Negro para proporcionar visão espiritual, juntamente com o caxiri, bebida de frutas e raízes fermentadas, à maneira como também fazem os outros grupos Tukano Oriental.

Etnia Makuna

O tambor pode acompanhar as canções durante as festasFazem parte do grupo de etnias do família Tukano Oriental que se localizam ao longo do rio Uaupés e seus afluentes no Brasil, e no Pira-Paraná e no Baixo Apapóris, na Colômbia. Nessa região encontram-se diversos lugares míticos que conformam a história da criação do Universo e dos seres humanos para os Tukano Oriental. Existem elementos que são compartilhados por todos os grupos e outros que contam a história específica de cada etnia ou de um clã em particular.
Os Makuna são estimados em aproximadamente 50 no território brasileiro e 600 na Colômbia. No Brasil encontram-se principalmente no Alto Tiquié, nas aldeias São Sebastião, Sítio Abianai e Morro Acutiwaia. Ao longo de toda a região dá-se um sistema social composto por uma rede de trocas entre as etnias, a qual envolve alimentos, conhecimentos rituais, artefatos e pessoas para se casar.
Os Makuna vivem da agricultura, pesca e caça, sendo conhecidos por suas habilidades de pesca, tanto pela produção de boas canoas e remos como pela própria produção dos artefatos da pesca em si, como armadilhas de cipó.
Alguns estudiosos se referem à religiosidade Makuna como uma ‘ecosofia’. Os lugares sagrados são respeitados e os pajés precisam mediar com cuidado a reciprocidade entre humanos, peixes e outros animais, para manter um balanço equilibrado entre esses mundos. Na Cosmologia Makuna o mundo é periodicamente destruído. Como essa é uma característica da cosmologia Aruaque, revela-se um paralelo entre o pensamento Tukano Oriental e Aruaque na região, fazendo deste um complexo cultural maior, que abrange regiões mais distantes. Muitos Makuna acreditam que tal destruição está acontecendo no período atual, e que em breve não haverá espaço para eles na Terra. Na Colômbia isto vem se agravando em função de que vários lugares sagrados estão sendo postos em ruínas para a atividade de mineração de ouro.

Etnia Desana

ft_desanaO povo indígena Desana pertence à família lingüística Tukano Oriental, juntamente com outros 15 grupos que ocupam a região do Alto Rio Negro, no Noroeste Amazônico. Existem aproximadamente 1600 desanas no Brasil.
Os Desana habitam principalmente o Rio Tiquié e seus afluentes Cucura, Umari e Castanha; e o Rio Papuri e seus afluentes Turi e Urucu; além de trechos do Rio Uaupés e Negro, inclusive cidades como Santa Isabel, Barcelos e Manaus. Os Desana são especialistas em certos tipos de cestos trançados como balaios e cumatás.
Os Bayaroá, mestres de musica e cerimônia; e os Kumuã, sábios e rezadores, Desana também são bastante respeitados em seu meio.
Uma questão importante a ser apontada sobre os povos Tukano Oriental e narrada com clareza na mitologia Desana é que após as tentativas frustradas de criar os primeiros elementos e seres, o ‘Avô do Universo’, Umuri Ñehku, cria a ‘Avó do Universo’, Yebá Buró, que seria o primeiro retrato da mulher-mãe, da qual as mães das gerações futuras iriam se assemelhar; e foi somente através deste trabalho conjunto entre o elemento masculino e o elemento feminino é que foram criados os oito primeiros seres que deram vida à Terra.
Os Desana se autodenominam Umuko-Mahsã, o que significa “Gente do Universo”, em referência a terem sido trazidos junto com os demais povos da humanidade dentro da ‘Cobra-Canoa’, uma canoa em forma de cobra que, submersa, realizou longo trajeto através da costa do Brasil até o Rio Negro, criando as Casas da Transformação, pontos de colonização da humanidade. Quando chegaram à região do Rio Negro e afluentes, os seres humanos já se encontravam em estado avançado no crescimento físico e desenvolvimento dos ancestrais da pré-humanidade que posteriormente gerariam os humanos de hoje. Outra autodenominação Desana é Emekholi-Mahsã, pois, na partilha do Dia e da Noite com o Povo Tukano, escolheram permanecer ficar com o Dia. Alguns dizem ainda serem este povo Asiri-Mahsã, Gente do Sol.

Etnia Arapaso

Os Arapaso são um dos 15 grupos pertecentes à família linguística Tukano OrientalCaxiri na cuia é parte integrante das festas nas quais se canta o Hãde

que habitam a região do Alto Rio Negro. Sua área de ocupação é principalmentea região Médio Uaupés mas estão ao longo da região, inclusive em Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos.
Os Arapaso se autodenominam Konea (ou Korea). Compartilham vários dos mitos de criação do restante do grupo Tukano Oriental, como o fato de estarem localizados na região dos rios Negro, Uaupés e seus tributários por que os foram colonizando após serem deixados em diversos pontos pela canoa em forma de cobra, a Cobra-canoa.

Atualmente os Arapaso são aproximadamente 400 indígenas e falam apenas o Tukano e o Portugues. Ainda assim, se consideram como grupo de descendência distinto dos demais, e são parte das trocas de maridos e esposas realizado exogâmicamente na região, tradicionalmente feita pela diferenciação linguística. Uma versão Arapaso relata que são descendentes de um indíviduo mitológico (Unurato) que nasceu após a relação de uma mulher com uma cobra. Rejeitado pela mãe, ele vagou pelos rios até transformar-se em homem na cidade de Manaus.

Caxiri na cuia é parte integrante das festas nas quais se canta o Hãde